“Nossa Senhora das
Dores e a História de um Povo: A Origem de Dores do Turvo”
Conheça a trajetória histórica e
espiritual que deu origem ao município de Dores do Turvo, moldado pela fé em
Nossa Senhora das Dores e pela força de seu povo.
A história
de Dores do Turvo está profundamente enraizada na devoção a Nossa Senhora das
Dores, que não apenas deu nome à cidade, mas também moldou sua identidade.
Prova disso é que, em 1745, três genros do português Brás Pires Farinho
obtiveram títulos de sesmaria para formar fazendas às margens do ribeirão Santo
Antônio, afluente do rio Xopotó. São eles os portugueses Domingos Mendes
Peixoto, João de Arruda Câmara e João Martins de Medeiros. Este último merece
destaque, pois as roças que ele formou seriam o embrião do futuro município de
Dores do Turvo, MG. Além disso, em 1765, José Nunes Vieira e seus irmãos,
moradores do distrito de Jequitibá, em Itaverava,
solicitaram ao governo da capitania de Minas Gerais a exploração das terras nas
cabeceiras do Ribeirão do Turvo. Com a venda das terras herdadas de seu pai em
1774, alguns membros da família Nunes finalmente se mudaram para o Turvo. José
Nunes Vieira, o primeiro deles, não mediria esforços por uma causa maior: a
formação do patrimônio dedicado a Nossa Senhora das Dores, a quem ele havia
feito o voto de servir por toda a vida.
Em 1781, o sonho de José Nunes
Vieira começou a tomar forma: a construção de uma capela dedicada a Nossa
Senhora das Dores. A fazenda de Francisco Martins de Medeiros, filho de João
Martins de Medeiros e neto do desbravador Brás Pires Farinho, foi escolhida como o local ideal, onde hoje se ergue a
imponente Igreja Matriz. A autorização para a edificação veio diretamente da
monarca portuguesa, Maria I, em 07 de julho de 1783. No dia
23 de agosto de 1805, a capela recebeu importantes obras de arte sacra,
possivelmente por Manoel Dias e pela oficina de esculturas do Padre Félix
Antônio Lisboa, irmão do mestre Aleijadinho. Essas obras incluem as imagens do
Calvário: Nosso Senhor dos Aflitos, Nossa Senhora das Dores, Santa Maria
Madalena e São João Evangelista, encomendas para a referida capela em construção.
A capela foi oficialmente benta em
6 de dezembro de 1810, pelo grande
apóstolo da mata Padre Manoel de Jesus Maria, fundador e primeiro vigário da
freguesia de São Manoel de Rio Pomba.
Ao lado de José Nunes Vieira,
merece especial destaque a figura de Maria Lopes Correia, mulher de profunda fé
e uma das primeiras benfeitoras na origem da devoção a Nossa Senhora das Dores
no Turvo. Já viúva à época, Maria Lopes estabeleceu com José Nunes uma parceria
agrícola e espiritual desde 1774, ano em que ambos se transferiram de Itaverava para a região do Turvo. Registros históricos
comprovam sua participação ativa nas lavouras e nos compromissos de dízimos pagos
à Coroa, em conjunto com José Nunes. Em 1781, quando se iniciou o projeto da
construção da capela dedicada à Virgem Dolorosa, Maria Lopes Correia já era
reconhecida como agregada às roças dos Nunes, sendo parte essencial daquele
núcleo que lançava as bases espirituais do que viria a ser Dores do Turvo. Sua
contribuição silenciosa e firme permanece viva na memória da fé dorense.
José Nunes Vieira, reconhecido
como o grande responsável pela obra, faleceu em 1818, deixando um legado que
transcenderia sua vida. Documentos da época atestam seu papel fundamental na
fundação da capela e sua dedicação à comunidade católica.
A capela foi
o ponto central ao redor do qual a comunidade de Dores do Turvo cresceu. Em
1850, ela se tornou paróquia, consolidando sua importância religiosa e social.
Mas a devoção e o amor pela padroeira não pararam por aí. No início do século
XX, sob a liderança do Padre Vicente de Cunto Pinto, o povo se uniu para
adquirir um órgão de tubos para a igreja. O instrumento, vindo de Roma, foi uma
conquista notável para uma paróquia sem grandes recursos financeiros. Em 13 de
junho de 1909, o órgão foi abençoado e inaugurado, tornando-se um símbolo da fé
da comunidade.Quem poderia imaginar que, em uma época de
dificuldades para uma Paróquia pobre, sem recursos, em um distrito sem
indústrias e sem comércio ativo, uma obra tão grandiosa pudesse ser realizada?
A comunidade, com uma fé e amor inabaláveis, fez convergir todos os esforços e
harmonias para concretizar este nobre projeto e oferecer à padroeira
tão delicado mimo, mostrando um entusiasmo excepcional ao oferecer tão
raro e litúrgico instrumento.
Em 1938, com a chegada do Padre
Agostinho José de Resende, surgiu o anseio por um novo templo, mais digno da
grandeza da padroeira. Com o auxílio do engenheiro italiano Raphael Juliano, a
construção da nova Igreja Matriz teve início em 1940. A obra foi concluída em
1945, entregando ao povo um templo majestoso, com vitrais artísticos de
Galliano, pinturas a óleo de José Gomes de Oliveira — o conhecido Juca Pintor —
afrescos do renomado Edson Motta, e altares de mármore confeccionados pelos Irmãos Longo. Cada detalhe da nova igreja refletia o desejo
do povo de glorificar a Mãe das Dores com o melhor de suas mãos e de seus
corações.
Ao final de 1953, no dia 12 de
dezembro, Dores do Turvo foi elevada à condição de município, concretizando sua
emancipação política. O nome do novo município homenageou dois elementos
fundamentais de sua história: o Rio Turvo que atravessa a cidade e a devoção a
Nossa Senhora das Dores. A Virgem Dolorosa permaneceu como padroeira oficial da
cidade, consolidando a fé de um povo que a ela recorre há quase três séculos.
A devoção a
Nossa Senhora das Dores se fortaleceu ainda mais em 1976,
quando o Padre Nelson Marotta, com a autorização do
Papa Paulo VI, organizou o primeiro Jubileu de Nossa Senhora das Dores,
celebrado anualmente de 5 a 15 de setembro. Esse evento tornou-se uma tradição
essencial, reafirmando a ligação espiritual da comunidade com sua padroeira. Em
1992, o Papa João Paulo II concedeu autorização perpétua para a realização do
Jubileu, destacando a importância contínua dessa devoção.
A
imagem da padroeira, venerada desde a inauguração da primeira capela, recebeu
em 2012 o tombamento pela prefeitura de Dores do Turvo através do decreto
20/2012. Em 2013, o município, por meio do Conselho Municipal do Patrimônio
Cultural, registrou o Jubileu de Nossa Senhora das Dores do Turvo como
patrimônio imaterial de Dores do Turvo na modalidade Celebrações.
Em
dezembro de 2024, a Prefeitura Municipal de Dores do Turvo, por meio do
Conselho Municipal do Patrimônio Cultural, em parceria com a Paróquia Nossa
Senhora das Dores, lançou o primeiro livro sobre a história do município:
"Dores do Turvo- MG história, devoção, arte, e patrimônio cultural",
uma obra coletiva que reúne textos de diversos autores.
Também
são realizadas anualmente festividades tradicionais, como o Carnaval, a Semana
Santa, a Exposição Agropecuária, o Torneio Leiteiro — que ocorre na última
semana de agosto — e o Festival Gastronômico.
Dores
do Turvo é, portanto, muito mais do que um ponto no mapa: é a expressão viva da
fé, da memória e da resistência de um povo que construiu sua identidade a
partir da devoção à Virgem Dolorosa. Cada pedra assentada, cada festa celebrada
e cada gesto de fé reafirmam a íntima ligação entre a história do município e a
presença constante de Nossa Senhora das Dores. Preservar essa herança é
garantir que as futuras gerações continuem a encontrar sentido, força e
inspiração nas raízes espirituais e culturais que sustentam Dores do Turvo
desde o seu nascimento.